Boletim para Educadores

1º QUADRIMESTRE

O papel dos educadores para a construção de uma visita educativa.

“Aqui era a casa dela? ” “Ela morou aqui em Campos do Jordão? ” “Este Museu pertence à família? ” Essas são perguntas frequentes que os visitantes fazem aos nossos educadores. Notamos, inclusive, que o aspecto biográfico sempre chama mais a atenção do visitante que nos procura. Por isso, nós
educadores, temos uma tarefa muito importante: A de nos afastarmos desse biografismo.


Antes de adentrarmos no texto, ressaltamos que este boletim surge da reflexão de nossos educadores, como um primeiro passo para um assunto tão complexo e profundo. E ainda, gostaríamos de convidar os educadores museais, professores, estudantes, pesquisadores, e toda a comunidade que nos visita para nos ajudar a pensarmos em tais soluções.


“O Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro tem como missão preservar, pesquisar e comunicar sua coleção de esculturas; promover fruição e expressão em artes visuais, especialmente em escultura; estimular apreciação, compreensão e expressão musical; preservar a vegetação do
seu jardim, intrinsecamente associada com a coleção de esculturas, e sua área adjacente de mata atlântica, e promover a conservação ambiental, contribuindo na construção de
diálogos e pontes para o conhecimento. ” (Museu Felicia Leirner, 2020)


Conforme vimos na proposta de Missão do Museu, somos educadores de um Museu de Arte, cujo papel educativo se propõe a mediar a nossa coleção de esculturas ao espectador que nos visita. E de que forma podemos fazer isso? Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis de se realizar, já que
estamos em um espaço tão singular, como é o Museu Felícia Leirner. Pouquíssimos artistas tiveram a oportunidade de verem reunidos parte de seus trabalhos em um único lugar, cuja exposição é fixa e o local leva o seu nome.

Em outros locais que são atrelados ao nome de algum artista, geralmente são Museus-casa ou Museus Históricos, onde ambos se encaixam em categorias completamente distintas da nossa. Assim, poderíamos afirmar que é praticamente nulo a quantidade de espaços como o nosso. Partindo deste ponto, voltamos novamente à questão: Como estruturamos uma visita educativa que cumpra com o objetivo de saciar o anseio das curiosidades da vida da artista e ao mesmo tempo discutir as experiências dos processos imigratórios, o contexto sócio-político e econômico da cidade de São Paulo, as Bienais de Arte, o mecenato artístico, as premiações e a construção deste Museu? Já que que Felícia Leirner é uma agente que atua de várias formas dentro do “sistema das artes”, cujo termo poderíamos definir a partir da pesquisa da historiadora e crítica de arte, Maria Bulhões: “Conjunto de indivíduos e instituições responsáveis pela produção, difusão e consumo de objetos e eventos por eles mesmo rotulados […], ao longo de um período histórico. ” (BULHÕES, p. 15; 2014).

E nossa proposta deve ser calcada na ideia de que a visita deva durar tempo suficiente para que não canse o nosso público.

Deste modo, encontramos o conceito de “trajetória”, postulado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, cujo debate e proposta são essenciais para repensarmos a nossa narrativa. Podemos definir que, segundo Bourdieu, a trajetória é a junção das relações entre os sujeitos com as forças presentes no campo. Dentro da dinâmica do educativo, acredito que todos os educadores trabalhem em cima dessa perspectiva sócio-histórica da trajetória. A partir disso, conseguimos afastar a noção de um biografismo, ou de uma história de vida de um determinado sujeito, na medida em que a história é construída a partir de acontecimentos e ações considerados significativos para a nossa
proposta.


“Toda trajetória social deve ser compreendida como uma
maneira singular de percorrer o espaço social, onde se
exprimem as disposições do habitus; cada deslocamento para
uma nova posição, enquanto implica a exclusão de um
conjunto mais ou menos vasto de posições substituíveis e, com
isso, um fechamento irreversível do leque dos possíveis
inicialmente compatíveis, marca uma etapa de envelhecimento
social que se poderia medir pelo número dessas alternativas
decisivas, bifurcações da árvore com incontáveis galhos mortos
que representa a história de uma vida. (BOURDIEU, p.292;
1992) ”


Após levantar os questionamentos, tentamos solucionar as lacunas na
prática, na medida em que: Usamos nossos dois equipamentos como se
fossem estações da história. “ – Mas o que seria isso? ”


No Auditório Claudio Santoro, por exemplo, você não recebe informações somente da sala de concertos em si. É importante entendermos que tudo é construído em um tempo e contexto, cujo tempo é moldado a partir de uma história de longa duração. Para você entender a construção deste
equipamento, você tem que ouvir sobre os ciclos da cidade de Campos do Jordão, a história do Festival de Inverno, as questões estruturais e estética do prédio e de como tudo isso em conjunto determina que o visitante esteja aqui. Do mesmo modo, começamos a visita na área externa relatando a vida pregressa de Felícia ainda em solo europeu, passando pelo empreendimento têxtil, os ateliers de artistas, até chegar naquela primeira escultura que vemos.

Utilizamos também o método dos “anos” para nos conectarmos à ideia da trajetória. Por exemplo, 1953 que demarca a primeira apresentação de alguma obra na Bienal de São Paulo, interligamos todos esses outros assuntos que perpassam os movimentos de Felícia Leirner no campo sócio-político das artes.


Por fim, gostaríamos de ressaltar que, dessa forma, acreditamos estar trilhando as melhores alternativas para comunicarmos o nosso acervo museológico e demais temas, munidos também na confecção de materiais, cursos e oficinas e demais atividades educativas para favorecer a participação de todos os interessados, sempre levando em conta as necessidades
específicas de cada grupo ou indivíduo.

REFERÊNCIAS:

BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo
literário. São Paulo: Companhia das letras, 1996
BULHÕES, Maria Amélia. As novas regras do Jogo: O sistema da arte
no Brasil. São Paulo: Zouk Editora, 2014.
MUSEU FELICIA LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Plano
Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021. MUSEU FELICIA
LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Programa de Acervo. ACAM
Portinari: Campos do Jordão, 2021.
MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO.
Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

3º QUADRIMESTRE

Museus em diálogo: o setor educativo e sua missão social nos museus

Os museus, ao longo de sua trajetória histórica, assumiram diferentes funções sociais, políticas e culturais. Se em sua origem foram espaços de guarda e exibição de coleções, com o tempo passaram a ser compreendidos como instituições voltadas para o acesso público ao conhecimento, ao patrimônio e à memória coletiva.

A primeira geração dos museus teve início no século XVIII com os gabinetes de curiosidades. Segundo Marandino (2008, p. 15), ao longo dos séculos, os museus passaram a ser espaços de saber e progresso do conhecimento. Em seu início, os curadores enfrentavam desafios ao transmitir seu conhecimento a uma plateia, e essa preocupação com a utilização educacional dos acervos passou a ser cada vez mais introduzida nos espaços culturais, como estratégia de comunicação facilitada (MARANDINO, 2008, p. 8).

A palavra museu é um termo do latim, derivado do grego mouseion, que na sua origem significa “templo dedicado às Musa” – segundo a mitologia grega, as Musas eram filhas de Zeus com a titânide Mnemosine, e sua função era guardar as ciências, as artes e os tesouros da cultura (MARTINS, 2010, p. 13).

Apesar dessas várias modificações na forma de expor os objetos e de estabelecer um relacionamento com o público, foi só a partir da segunda metade do século XX que os museus passaram a ser reconhecidos formalmente como instituições intrinsecamente educativas. Essa faceta dos museus surgiu quando os serviços educativos iniciaram o atendimento específico para os diversos públicos a partir da definição de objetivos pedagógicos precisos (MARANDINO, 2008, p. 10).

Nesse percurso, o setor educativo se consolidou como o núcleo capaz de articular acervo e sociedade, transformando o museu em espaço vivo de diálogo, aprendizagem e reflexão. Mais do que repassar informações, a mediação educativa confere sentido às experiências, tornando-as significativas e acessíveis para diferentes públicos. Assim, compreender o papel do educativo é compreender a própria função pública do museu em tempos de crescente demanda por inclusão, diversidade e participação social.

Nota-se que o setor educativo é um dos pilares fundamentais das instituições culturais, gerando impactos que vão além da transmissão de informações. Sua função é mediar a relação entre acervo e público, criando pontes de diálogo, como um facilitador, através da fruição, reflexão e aprendizado (BARBOSA, 2008, p. 117).

“Como o museu pode promover transformações sociais, incluir e dar acesso se não entende a amplitude do que caracteriza a educação em museu?” (BARBOSA, 2008, p. 124).

O educador percorre um espaço intelectual, acadêmico e forma uma ponte de educação não formal com o público (MARANDINO, 2008, p. 13), atuando como mediador cultural, elaborador de estratégias pedagógicas e criador de experiências que tornam a visita ao museu significativa, se colocando como parte ativa da missão museológica (BARBOSA, 2008, p. 121-125).

Esses profissionais, em geral, possuem formação diversificada, seja nas áreas específicas das ciências ou das humanidades, seja em áreas mais técnicas. Contudo, ao exercer a função de mediadores, todos assumem a tarefa de tornar o conhecimento produzido acessível aos mais variados públicos, despertando curiosidades, aguçando interesses, promovendo o contato com o patrimônio (MARANDINO, 2008, p. 5).

O setor educativo é indispensável para que os museus cumpram sua missão social. Ao unir conhecimento, sensibilidade e compromisso com a inclusão, os educadores garantem que o patrimônio cultural seja não apenas preservado, mas também vivido e reinventado. Reconhecer e valorizar o educativo é reconhecer o próprio sentido público do museu (BARBOSA, 2008).

Como reforça a Política Nacional de Educação Museal (PNEM, 2013), a educação em museus deve ser entendida como um processo permanente e contínuo, realizado de forma dialógica, crítica e inclusiva, visando à construção da cidadania.

Ainda que o setor educativo seja reconhecido como fundamental, é importante refletir sobre os desafios que recaem sobre ele no cotidiano institucional. Não raro, os educadores assumem funções que superam o campo pedagógico, estando em diferentes frentes institucionais. Participam da organização de exposições, acompanham o público em eventos artísticos, desenvolvem palestras, pesquisas, colaboram em projetos de comunicação, produzem oficinas em formatos online e presencial. Essa multiplicidade de tarefas evidencia a amplitude do trabalho educativo e sua presença constante nas diversas dimensões do museu. Evidentemente, todos os setores são fundamentais para o funcionamento institucional, porém o educativo se destaca como elo de integração, por estar continuamente em contato direto com a comunidade e com os visitantes.

Essa multiplicidade de papéis demonstra a versatilidade e o compromisso dos profissionais, mas também aponta para a necessidade de que se reconheça a amplitude das responsabilidades do setor educativo. Esse cenário reforça a importância de valorizar a equipe que, mesmo diante de múltiplas demandas, sustenta o diálogo entre acervo e sociedade, assegurando a missão pública dos museus.

Nesse sentido, o Caderno de Conceitos-Chave da Educação em Museus (SISEM-SP, 2017) destaca que o educador museal “atua em interface com diferentes setores, lidando com demandas diversas que vão do atendimento direto ao público até a elaboração de projetos pedagógicos” (SISEM-SP, 2017, p. 4). Segundo Marandino (2008), a educação em museus se caracteriza pela pluralidade de funções e pela necessidade de articular dimensões pedagógicas, culturais, sociais e administrativas, o que exige dos educadores constante adaptação e versatilidade.

Uma visita a um museu pode ser mais do que divertimento, não só por estimular o aprendizado e a observação, mas por promover o exercício da cidadania indistintamente (MARANDINO, 2008, p. 21).


REFERÊNCIAS

BARBOSA, Maria Helena Rosa. Ações educativas em museus de arte: entre políticas e práticas. Florianópolis: MASC, 2008;

MARANDINO, Marta (org.). Educação em museus: a mediação em foco. São Paulo: Cortez, 2008;

MARTINS, Luciana Conrado. Que público é esse?. São Paulo: EDUC, 2010;

PNEM – Política Nacional de Educação Museal. Brasília: Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, 2013;

SISEM-SP. Conceitos-chave da educação em museus. São Paulo: Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, 2014.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

2º QUADRIMESTRE

Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes
diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fizemos
Paulo Freire

O que podemos fazer com uma folha de sulfite em branco? Podemos transformá-la em um barco de papel, em um desenho para colorir, imprimir nela as regras de um jogo, usá-la como base para uma escultura de argila, e, no final de tudo, ela ainda pode virar papel machê. Ao pensarmos nas possibilidades de uma folha de sulfite, falamos aqui sobre as múltiplas formas que os materiais educativos museais podem assumir e sua importância na mediação entre o público e os equipamentos culturais. Neste boletim, vamos abordar a construção desses recursos pelo Núcleo Educativo do Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro, apresentando algumas das atividades que o público já pode aproveitar durante as visitas.

Dentro da rotina do Núcleo Educativo, está o desenvolvimento de atividades que explorem, por meio dos eixos temáticos dos equipamentos culturais (Artes Visuais, Música e Meio Ambiente), novas formas de dialogar com os conteúdos específicos para os visitantes. Dessa proposta, nascem diferentes oficinas, com metodologias e objetivos próprios. Compreendemos que esses materiais têm o potencial de enriquecer e ampliar nossas mediações.

Uma das atividades criadas para o eixo de Artes Visuais é o “Moldando Expressões”, onde os visitantes são convidados a mergulhar no processo de produção da artista Felícia Leirner. São disponibilizados: argila (representando o momento em que os moldes de suas obras de bronze eram produzidos com barro), sabão de coco (para ficar semelhante à coloração das obras feitas de cimento branco armado com ferro) e estecas (ferramentas que auxiliam na modelagem). Os participantes podem se inspirar e criar releituras das esculturas que fazem parte do museu, como também são livres para criar sua própria arte. Dentro de metodologias pedagógicas, esta oficina encaixa-se perfeitamente na aplicação da Abordagem Triangular, defendida por Ana Mae Barbosa, que exemplifica como o ensino das artes pode ser estruturado em três pilares: apreciação (observação e análise crítica de obras de arte), contextualização (apresentação do contexto cultural, histórico e social no qual a obra foi criada) e o fazer artístico (momento de colocar a mão na massa, promovendo um momento de experimentação).

No eixo de Música, apresentamos aqui o “Jogo da Memória Musical”, composto por 16 caixinhas de fósforo personalizadas, em que cada dupla contém os mesmos materiais (variando entre botões, bolinhas de papel, sementes, grampos, miçangas, entre outros). Para testar a memória e a audição, os participantes sacodem uma caixinha por vez, prestando atenção no som para encontrar o par correspondente.

Já no eixo de Meio Ambiente, citamos o jogo “Qual é a Planta?”, que apresenta diferentes espécies de plantas nativas da Mata Atlântica e que podem ser encontradas no espaço do museu. O jogo é composto pelos seguintes materiais: uma ficha com as imagens e nomes de cada uma das espécies, um conjunto de fichas de perguntas e, por último, diversas letras para compor o nome de cada planta. Os visitantes que estiverem jogando devem se dividir em dois grupos, e o educador responsável pela mediação da oficina explicará sobre o bioma, sua diversidade e as espécies citadas no jogo. Em seguida, escolherá uma ficha de perguntas e lerá a questão em voz alta. O primeiro grupo a montar corretamente o nome da planta que acredita ser a resposta levará o ponto.

O que as atividades apresentadas nos dois eixos anteriores têm em comum? Elas seguem a metodologia de aprendizagem por meio de jogos, uma ferramenta capaz de destacar conceitos e favorecer a retenção do conteúdo, buscando um equilíbrio entre as funções lúdicas e educativas, mesclando o momento de lazer com saberes e conhecimentos.

Ao mesmo tempo em que muito é produzido, há uma constante preocupação com o quão sustentáveis são esses novos produtos educativos. Muitas vezes, reaproveitamos materiais que seriam descartados, como papelões, folhas de rascunho, garrafas plásticas e potes, que, com um toque de tinta, um pouco de glitter e cola quente, transformam-se em novos objetos. Também contamos com uma rica variedade de elementos naturais, como pinhas, folhas de diferentes árvores, sementes, galhos, entre outros, que nos permitem explorar a imaginação e os diversos caminhos que esses elementos efêmeros podem seguir – como se transformar em carimbos ou até mesmo em bonecos.

Constantemente, o Núcleo Educativo busca aprimorar suas oficinas, incorporando novidades que dialoguem com os eixos temáticos e com as práticas educativas do museu. Esse exercício envolve curiosidade e criatividade, refletindo a trajetória de cada educador em suas individualidades, formações e experiências – sejam elas pessoais, culturais ou profissionais. Cada um, com suas diferenças, compõe uma equipe interdisciplinar que, ao trabalhar coletivamente, desenvolve novos materiais e amplia as possibilidades de mediação.


REFERÊNCIAS

AMARAL. L (org). et al. Materiais educativos para museus e sua contribuição para a alfabetização científica. Rede de redes: diálogos e perspectivas das redes de educadores de museus no Brasil. São Paulo, 2018. Disponível em: https://www.sisemsp.org.br/redederedes/artigos/nucleo3/a15.html

ALVES, L.; BIANCHIN, M. A. O jogo como recurso de aprendizagem. Rev. psicopedag.,  São Paulo ,  v. 27, n. 83, p. 282-287,    2010 .   Disponível em  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862010000200013&lng=pt&nrm=iso

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MARANDINO. M. et al. A Educação em Museus e os Materiais Educativos. São Paulo: GEENF/USP, 2016. Disponível em: – http://www.geenf.fe.usp.br/v2/wp-content/uploads/2016/08/A-Educa%C3%A7%C3%A3o-em-Museus-e-os-Materiais-Educativos.pdf

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

RIZZI, M. C. de S. L.; SILVA, M. da. Abordagem Triangular do Ensino das Artes e Culturas Visuais: uma teoria complexa em permanente construção para uma constante resposta ao contemporâneo. Revista GEARTE, [S. l.], v. 4, n. 2, 2017. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/gearte/article/view/71934

1º QUADRIMESTRE

Quanto tempo dura o passeio: uma reflexão sobre o papel da contemplação na ação educativa em museus

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque,
requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm […].”

Jorge Larrosa

Uma grande parte da filosofia se dedica a entender a busca do ser humano pela beleza e as emoções que sentimos ao experienciá-la. Esse campo de estudo, que também reflete sobre a arte, sua apreciação e sua função na vida humana, é chamado de Estética – palavra vinda do grego aisthesis, que significa “percepção” e “sensibilidade”.

O Museu Felícia Leirner, como um museu de arte a céu aberto, tem em sua existência a intersecção entre dois princípios carreadores da apreciação estética: a arte e a natureza. Seu acervo compartilha o ambiente natural e cria paisagens especificamente a partir das interações desses dois elementos. Assim, além de convergirem num mesmo local o patrimônio material artístico e o patrimônio ambiental, ambos guardam por si só uma latência de contemplação.

Contemplar é uma reflexão demorada de admiração, que concentra os sentidos e a atenção em algo e nos desacelera, formando outro ritmo da passagem do tempo. Não demanda informação prévia, mas sim um estado de sensibilidade, ou seja, de estar receptivo às percepções dos sentidos. Como um local que provoca um deslocamento do cotidiano, o museu cria uma disposição para essa sensibilidade, “transportando” os visitantes para um tempo e lugar separados da realidade habitual, pois a maneira de perceber o mundo muda somente por adentrar esse espaço: as pessoas tendem a andar mais lentamente e passam a observar os arredores. Um museu a céu aberto traz ainda o cenário da natureza, que amplifica diretamente esse efeito.

Entre demandas e atrações em excesso, a vida contemporânea encurta o tempo e, com isso, uma das práticas que foi perdendo espaço é a de observar demoradamente. E por necessitar de tempo ocioso, “improdutivo”, a contemplação é tida como um luxo para poucos, já que a posse do tempo é também um distintivo social. Mas se observarmos que essa prática se expressa espontaneamente na infância – uma criança se deslumbra fácil e minuciosamente com o mundo ao redor – e isso se perde conforme precisamos converter tempo em utilidade, existe algo essencial ao ser humano nesse exercício. Assim, a contemplação é como um resgate do encantamento na maneira de experienciar o mundo, um freio necessário e também uma recusa da aceleração que assumimos como natural.

Contudo, ainda que os primeiros museus tenham sido criados com o intuito de exibição e apreciação de seus acervos, este objetivo estava ligado sobretudo à origem colonizadora dessas instituições e visava a manutenção cultural e social das relações de poder. Até então, a contemplação no museu estava bastante centrada em um ato passivo, onde os visitantes eram observadores distantes. A partir da década de 1970 ocorreu uma mudança de propósito: estabelecendo que a sua função deve ser socialmente comprometidacom a transformação da realidade, os museus passam a desenvolver práticas ativas para intervir no mundo por meio do seu patrimônio.

A educação museal, como responsável pelo diálogo direto com o público, consolidou-se nas últimas décadas como uma área de atuação essencial para o cumprimento desse objetivo, situando-se “na encruzilhada das trocas (sociais, culturais e afetivas) realizadas entre a instituição e a sociedade” (SISEM-SP, 2015). A atuação do educador busca justamente provocar situações que produzam sentido àquilo que se observa, despertando a percepção atenta do público através das mediações.

Por possibilitar o acesso a um repertório pessoal, às nossas memórias e influências, o exercício de contemplar estimula a imaginação e possibilita criar conexões com o que experienciamos no momento, dando sentido e significado a essa experiência. Quando o patrimônio adquire significado para as pessoas, passa a ser relevante para elas, algo a ser protegido como herança para as próximas gerações. Portanto, a ação educativa explora a contemplação como um impulso, como condutora e estimuladora desse processo, utilizando-a em favor da conscientização patrimonial e da produção de conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Tradução: João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação. n.19, jan./abr., 2002, p. 20-28. Disponível em:<https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt>

SISEM-SP. Conceitos-chave da Educação em Museus: documento aberto para discussão. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 2015. Disponível em:<https://www.sisemsp.org.br/wp-content/uploads/2023/03/SISEM_SP_conceitos-chave_da_e ducacao_em_museus.pdf>

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Museus a céu aberto: conceito e poética. Boletins de Acervo; ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2023.

“Na infância, contemplar é aprender sobre si mesmo e sobre o mundo”. Grupo Companhia das Letras, 27 de fevereiro de 2022. Disponível em: <https://www.companhiadasletras.com.br/BlogPost/6330/na-infancia-contemplar-e-aprender- sobre-si-mesmo-e-sobre-o-mundo?srsltid=AfmBOoqO5pkAPEULNc85Kx6U9ov-tUG3VDFNk djQTK-KdTku0lRcvb02>

PINTO, Helena. A educação patrimonial num mundo em mudança. Educação e Sociedade, Campinas, v. 43, e255379, 2022. Disponível em:<https://www.scielo.br/j/es/a/rn7z7jtnh3rx7kksLvHrjmf/?format=pdf&lang=pt>

3ºQUADRIMESTRE

Figura 1 – BRILL, Alice. Felícia Leirner em seu ateliê. c. 1951. Acervo do Instituto Moreira Salles. São Paulo.

“A minha inspiração nasceu aqui. E, através dela, me comunico com todo o mundo.”
(LEIRNER, Felícia). Jornal Folha de S. Paulo. 25 de abril de 1971.

Ao longo de sua trajetória artística, Felícia Leirner produziu diversas obras relacionadas ao mundo feminino, mais especificamente ao mundo materno. É notório que essa temática está ligada intrinsicamente à própria maturidade em sua carreira profissional. Como vemos na fotografia feita por Alice Brill (figura 1), no ateliê da artista.

No retrato, vemos a artista ao lado de sua criação. Felícia a envolve em um abraço afetuoso, como se aquela obra tivesse nascido de dentro dela.Essa relação quase maternal com suas obras é bastante evidente mesmo com o passar dos anos. O crítico de arte Mario Pedrosa, em curadoria sobre a sala especial da artista, na VIII Bienal de São Paulo, colocou:

“A sala atual de 1965 é a chegada de uma viagem de vinte anos. Felícia iniciou-se como escultora em 1945, quando sua direta tarefa materna estava por assim dizer cumprida, e as crianças cresciam. A ansiedade por si mesma, enfim extravasa à procura de expressão: a artista nascia dentro dela […] as figuras de mulher, da mãe, sobretudo a maternidade no fundo é nela tema tão importante. (PEDROSA, M. 1965) ”.

O crítico, nesse texto curatorial, faz uma síntese sobre o trabalho produzido pela artista até aquele momento, e ressalta o fato da criação, ou melhor, do nascimento da artista dentro dela, que advém do fim de um ciclo, o fim da criação materna. Assim, vamos pontuar sobre as obras e as mediações oferecidas pelo Museu que exemplificam esses aspectos da criação. No Museu Felícia Leirner, há duas obras intituladas “Maternidade”, além de outras que exploram as relações afetivas entre pais e filhos, como “Mãe e Filha”, “Casal com Filho”, “Figura Bíblica” e “Nascimento”. Há, ainda, em um dos semicírculos do espaço, esculturas (“Sakia”, “Agar” e “Meetabel”) que contam histórias da Torá, onde as figuras presentes são alegorias do processo materno[1]. Todas essas obras, exceto a figura bíblica, fazem parte da Fase Figurativa da artista. Uma fase marcada pela exploração da matéria e da forma, onde figuras humanas surgem, às vezes, com uma estética classicizante que remete à tradição de Maillol². Dessas obras, apresentamos um dos pontos de vista sobre a criação, que é a relação materna. Na obra “Maternidade” (1952), logo na entrada do Museu, vemos essa presença clássica do artista francês. O entalhe no mármore traz detalhes de uma maternidade sensível, onde a mãe segura carinhosamente o seu bebê. Em outras formas humanas, conforme aponta o crítico José Geraldo Vieira, vemos estruturas antropomórficas que nos remetem às produções de um expressionismo parecido com obras de Germaine Richier e Giacometti. Figuras andrógenas, com pouquíssimos detalhes nas feições de seus rostos, onde só conseguimos distinguir os sexos por meio da leve elevação dos seios. Dessas figuras esqueléticas, temos a obra “A Maternidade” (1955-1957). Nessa, já conseguimos observar a passagem da artista para a abstração. A paixão e o romantismo associados ao processo de ser mãe parecem ausentes. A figura materna é representada de modo intenso, como se estivesse sendo “absorvida” pelas duas crianças agarradas aos seus seios. Seus braços estendidos sugerem uma entrega quase inevitável a essa “tarefa materna”, uma representação evocada por Pedrosa. Mas o “criar” vai muito além disso. Por isso, o artigo da pesquisadora Carolina Souza[2], publicado em 2021, é caro para essa discussão. O texto discute aspectos dessa relação mútua entre o processo da criação materna e o processo criativo, presentes na obra do psicanalista inglês Winnicott. A autora, inclusive, analisou essas obras que elencamos no começo do texto. Segundo o artigo, a necessidade da criação chega a ser vital, onde nós só conseguimos descobrir a nós mesmos quando estamos em um processo criativo. Isso não sugere que esse processo seja a criação de uma obra de arte, de alguma invenção ou até mesmo de ser mãe. Pelo contrário, ser criativo é quando estamos preparando, por exemplo, uma refeição com ingredientes que nunca utilizamos, ou quando mudamos o traje que estamos acostumados a vestir, etc.


[1] Veja o “Você sabia” de agosto de 2024, publicado no Instagram do Museu Felícia Leirner que fala sobre essas três esculturas, com maior profundidade.

[2] DE SOUZA, CAROLINA; DOS SANTOS, MANOEL ANTÔNIO. Figurações da Relação Mãe-Bebê nas Esculturas de Felícia Leirner: Um Olhar Winnicottiano. SUBJETIVIDADES, v. 21, p. 1-13, 2021.

“Por meio dessa via – por exemplo, o cuidado materno – o artista pode se conectar com o mistério da criação. Ser mãe também é criar, procriar, recriar, dar à luz uma vida nova, que tem o condão de tornar o mundo mais rico e interessante.” (SOUZA, CAROLINA. p.3; 2021). Em nossas visitas e oficinas, recebemos pessoas das mais diversas idades, gêneros, classes sociais, nacionalidades etc. Quando recebemos o público infantil, notamos esse percurso do processo “amadurecimento” da criança. Da possibilidade em que as mesmas têm de projetar ideias para interpretarem as obras expostas e visualizarem aquilo que não está visível, o que permeia entre o real, o lúdico e o onírico. Da mesma forma, isso ocorre quando as oficinas são aplicadas, essa projeção e construção rápida de ideias, do raciocínio lógico e o estímulo cognitivo para romper aquele desafio proposto. Essa relação dialética apontada pelo psicanalista considera o papel que a arte pode desenvolver no ser humano. A descoberta de seus impulsos criativos é o que condiciona a vivacidade, de conseguir enxergar em si e no que está ao seu redor, e poder caminhar sobre essa ponte entre o inconsciente e a realidade.

Referências bibliográficas

Acervo do Museu Felícia Leirner. Disponível em: <https://www.museufelicialeirner.org.br/acervo/esculturas/>

BERNARDES, Lourdes. A artista que chegou e o educador que renovou.  São Paulo: Jornal Folha de São Paulo. 25 de abril de 1971. Arquivo Wanda Svevo. São Paulo.

DE SOUZA, CAROLINA; DOS SANTOS, MANOEL ANTÔNIO. Figurações da Relação Mãe-Bebê nas Esculturas de Felícia Leirner: Um Olhar Winnicottiano. SUBJETIVIDADES, v. 21, p. 1-13, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021

VIEIRA, José Geraldo. Sobre a retrospectiva de Felícia Leirner na Galeria das Folhas. São Paulo: Revista Habitat, nº54, 1959. Disponível em: < https://pt.scribd.com/document/672095726/Trecho-do-texto-de-Jose-Geraldo-Vieira-para-a-Revista-Habitat-n%C2%BA54-1> VIII Bienal de São Paulo, 1965. Catálogo geral. Fundação Bienal de São Paulo. Disponível em: <https://issuu.com/bienal/docs/name6dc084>

2º QUADRIMESTRE

Relação do Museu Felícia Leirner com a educação não formal: processos pedagógicos

Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo.
Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade”.

Paulo Freire (2020, p. 31)

Este boletim educativo é o primeiro de alguns artigos, a serem publicados futuramente, que buscarão pensar a mediação e a comunicação do acervo museológico do Museu Felícia Leirner enquanto processo educativo. Para tanto, iremos levantar abordagens e vertentes pedagógicas que se relacionam com o trabalho do Núcleo Educativo. Nesse sentido, aqui iremos nos ater à vertente pedagógica construtivista com foco nas contribuições de Jean Piaget.

Martins (2015, p. 50) diz que “os museus, em sua imensa variedade de tipologias de acervos e conformações institucionais, comportam um sem fim de práticas educativas voltadas para públicos e objetos diversos”. No Museu Felícia Leirner, além das visitas educativas para públicos escolares, de turismo e espontâneos, também realizam-se oficinas, cursos e ações para variados públicos. São essas práticas promovidas pelo Núcleo Educativo que buscamos refletir por meio do projeto de pesquisa “Comunicação de esculturas no MFL por meio da atividade de mediação para visitantes presenciais: objetivos, conteúdos e métodos”, constituído em parceira com o Núcleo de Acervo e o Centro de Pesquisa e Referência e disponível no site do Museu e Auditório.

Segundo Marandino e Ianelli (2012), a preocupação com a educação nos espaços museológicos tem início no século XX, ou seja, os estudos acerca do tema ainda são recentes e pouco explorados. As autoras dispõem que o histórico dos processos educativos em museus acompanha as tendências pedagógicas da educação formal brasileira, sendo assim, os avanços e pesquisas sobre o processo de ensino-aprendizagem e das perspectivas pedagógicas no contexto formal da educação refletem na educação não formal, no qual os museus se encontram.

Nesse sentido, as pesquisadoras consideram que é possível dividir o contexto histórico dos propósitos educativos dos museus em três gerações, com as seguintes características: na primeira, com preocupação apenas na exposição dos objetos de forma desorganizada e sem propósito educativo; na segunda, ocorre a organização da exibição com foco nos estudos e pesquisas dos mesmos e, na terceira e última geração, volta-se atenção para a interação do público com os objetos expostos. Essas gerações dialogam com as abordagens pedagógicas: tradicionais no primeiro momento, tecnicista no segundo e construtivista no terceiro (Marandino e Ianelli, 2012).

Como já mencionado neste texto, pensando nas especificidades do Museu Felícia Leirner, enquanto um museu de esculturas a céu aberto, com a exposição de obras de uma mesma artista mulher, na interação dos objetos museológicos com o patrimônio ambiental, e na divisão do espaço físico com o Auditório Cláudio Santoro, fez-se relevante iniciar a análise do trabalho do Núcleo Educativo por meio da abordagem construtivista da educação. É válido ressaltar que a adesão a uma determinada concepção pedagógica não se fecha à inclusão de outras, ou seja, um conceito não exclui outro e, sim, adiciona (Marandino e Ianelli, 2012).

De acordo com Santos, Oliveira e Junqueira (2014), Piaget é um dos teóricos que contribuíram para a estruturação do construtivismo. “Falar em Construtivismo, como a própria palavra diz, é pensar em construção, em construção do conhecimento” (Santos, Oliveira e Junqueira, 2014, p. 10). Jean Piaget viveu 84 anos, de 1896 a 1980. Foi biólogo, filósofo e epistemólogo, que por meio da observação do processo da aprendizagem de criança a adolescentes trouxe subsídios teóricos para a psicologia e que, mesmo sem a intenção, são até os dias atuais empregados no campo pedagógico (Santos, Oliveira e Junqueira, 2014). Em suma, as teorias de Piaget relatam a forma pela qual o indivíduo constrói e organiza o conhecimento.

Em seus estudos, Piaget concluiu que o ser humano constrói um conhecimento por meio de estágios que se dão através da evolução gradativa e no qual as mudanças são ordenadas e previsíveis. O homem é um ser social e as relações sociais do seu ambiente interferem no desenvolvimento da inteligência e, assim como o meio social é variável, a inteligência também sofre alterações ao longo do amadurecimento do indivíduo. Esse processo foi denominado pelo pesquisador de mudanças qualitativas e ocorre a partir da aquisição da linguagem com a inteligência prática até a adolescência com o pensamento formal (Taille, Oliveira e Dantas, 2019).

Taille, Oliveira e Dantas (2019) afirmam que, para o biólogo, a inteligência possui duas ramificações: a função que todos os seres possuem e a estrutura que apenas os seres humanos detêm, pois exige maior nível de inteligência. As estruturas cognitivas permitem a compreensão do conhecimento, por ações físicas e mentais. Para Piaget, a aprendizagem acontece da seguinte maneira:

● Assimilação: interpretação.
● Acomodação: compreensão do novo.
● Equilibração: após o conflito, surge a acomodação.
● Esquema: estruturas que se modificam.

Desse modo, a aprendizagem é um ciclo repetitivo que, por meio da relação do sujeito com o objeto, busca constantemente o equilíbrio. Já o desenvolvimento cognitivo decorre por meio de estágios que representam o nível da inteligência. Piaget divide em três estágios:

● Sensório – motor: percepções e ações. O ser humano nasce com duas ações (agarrar e sugar) e todas as outras funções são aprendidas com o tempo. A inteligência prática promove a vivência e a aprendizagem. Uma criança, ao nascer, tem o conceito do que é o mundo. Aos 9 meses, já começa a compreender os objetos.
● Pré-operatório: há mudanças na qualidade da inteligência. Surge a função simbólica, ou seja, a manifestação da linguagem. Nesse período acontece a comunicação, o início da criança no âmbito moral e ético e a organização dos conhecimentos adquiridos em um todo coerente.
● Estágio operatório: ação interiorizada reversível pode ser entendida por pensar, agir e organizar o pensamento. Esse estágio é subdividido em duas partes – operatório concreto e operatório formal.

Por fim, ao considerar que a moral também é um fator social, Piaget propõe que o desenvolvimento da capacidade do raciocínio lógico acontece junto com o desenvolvimento da moral. Ao longo de cada etapa de amadurecimento da inteligência, a criança irá alterar a forma com que se relaciona com as normas e regras morais. Por isso, a moral e a afetividade são temas que Piaget abordou em suas pesquisas.

Os estudos de Piaget contribuíram para o início da superação do modelo tradicional de ensino, no qual o indivíduo era tido como um depósito de informações. Compreender que o processo de ensino-aprendizagem depende das relações sociais e da relação do indivíduo com o objeto de estudo, atribui ao aluno o protagonismo e o papel ativo que antes era ignorado. Esse aspecto acaba por ser um dos mais importantes para o trabalho do Núcleo Educativo do Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro.

REFERÊNCIAS
MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021

MARANDINO, Martha; IANELLI, Isabela Tacito. Modelos de educação em ciências em museus: análise da visita orientada. Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências (Belo Horizonte), v. 14, p. 17-33, 2012.

MARTINS, Luciana Conrado. Como é criado o discurso pedagógico dos museus? Fatores de influência e limites para a educação museal. Museologia & Interdisciplinaridade, v. 3, n. 6, p. 49-68, 2014.

SANTOS, Anderson Oramisio; OLIVEIRA, Guilherme Saramago; JUNQUEIRA, Adriana Mariano Rodrigues. RELAÇÕES ENTRE APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO EM PIAGET E VYGOTSKY: O CONSTRUTIVISMO EM QUESTÃO. Itinerarius Reflectionis, Goiânia, v. 10, n. 2, 2015. DOI: 10.5216/rir.v10i2.32621. Disponível em: https://revistas.ufj.edu.br/rir/article/view/32621. Acesso em: 24 maio. 2024.

TAILLE, Yves de La; OLIVEIRA, Marta Kohl de; DANTAS, Heloysa. Piaget, Vigotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 2019.

1º QUADRIMESTRE

Relação entre as borboletas e mariposas com as esculturas da artista Felícia Leirner e qual a sua influência nas visitas educativas

”Será que eu sempre sabia e achei que a borboleta é linda e que a grama é verde?”

Felícia Leirner

O Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro são espaços culturais que possuem um papel fundamental quando tratamos de ações educativas. Estão imersos em meio à natureza e esse fator pode ser abordado com diversos públicos durante as explanações e as visitas. As atividades e oficinas são administradas por meio dos três pilares que norteiam o espaço, sendo eles: Artes Visuais, Meio Ambiente e Música. Com isso, o museu se torna um ambiente dinâmico e atrativo para diferentes tipos de público.

Quando o assunto é o pilar “Meio Ambiente”, o educador pode explorar o tema de diversas formas. A Mata Atlântica é um bioma muito rico e sua abundância de espécies está presente ao longo de todo o trajeto. Há uma grande variedade de insetos que o público consegue observar durante o passeio e perceber o quanto esses seres se beneficiam das esculturas.

Pelas alamedas, ao longo do percurso, diferentes paisagens se conectam com as obras espalhadas pelo espaço. As esculturas permitem que nossos olhos captem a ligação entre a arte e a natureza. Algumas delas foram inspiradas em animais, outras servem até como abrigo para eles, já que possuem formas arredondadas ou assimétricas, pontas e irregularidades que são ótimos locais para a interação com diversas espécies. Se olharmos atentamente, percebemos que algum animal já passou por quase todas as obras. Inclusive, borboletas e mariposas (lepidópteros) utilizam com frequência as curvas das esculturas para colocarem seus ovos, tornarem-se pupas, rastejarem em sua fase de lagarta ou até mesmo para repousarem suas asas. É possível acompanhar todo o desenvolvimento desses insetos, sendo um tema muito atrativo e diferente que pode ser abordado durante o percurso.

Durante o passeio e a interação da equipe educativa com os visitantes, ao passarmos pelas esculturas denominadas “Habitáculos”, pertencentes à fase orgânica da artista, existe uma variedade de espécies de borboletas se alimentando e sobrevoando as bordas das matas próximas as esculturas. Esse conjunto de obras foi construído como verdadeiras casas para os animais, e esses pequenos insetos voadores parecem ter descoberto isso. Ou seja, para além da poética e intencionalidade artística, as esculturas auxiliam na proteção e manutenção desses indivíduos.

As mariposas cumprem o seu papel durante a noite. Pelas alamedas e escadas encontramos espécimes que se camuflam no ambiente. As mariposas brancas são quase imperceptíveis ao repousarem nas obras de cimento branco; as de cores escuras e amarronzadas se camuflam nas esculturas em bronze; as de tons acinzentados tornam-se parte daquelas esculpidas a partir do granito.

Todas essas pequenas relações tornam-se de grande peso na sobrevivência dos Lepidópteros, mas também são temáticas que permitem abordar o assunto da evolução das espécies que são adaptadas ao ambiente onde estão inseridas, trazendo exemplos da camuflagem e do mimetismo. A partir da análise do educativo, foram desenvolvidas atividades como a observação noturna, onde é montada uma armadilha luminosa que permite o registro fotográfico das mariposas e identificação de espécies. Nessa atividade, foi possível verificar a presença de algumas  espécies que encontram-se em risco de extinção, permitindo abordar a importância da preservação do meio ambiente.

Felícia Leirner sempre teve um amor muito grande pela natureza e pelos animais. Suas esculturas mostram o quanto ela observava e admirava todo o ambiente ao seu redor – cada curva, silhueta e recorte permitem que nossos olhares se guiem para além de suas produções. Desse modo, cada ação educativa desenvolvida no museu é uma oportunidade de expandir o seu conhecimento e descobrir novos horizontes. Uma pequena lagarta ou uma linda borboleta em sintonia com suas obras traz consigo um mundo de possibilidades, que vai desde a curiosidade de uma criança até a sabedoria dos mais velhos, todos trabalhando em conjunto, aprendendo e descobrindo como assuntos tão diferentes podem se conectar de forma tão fantástica.

REFERÊNCIAS:

DAMIÃO, Andreza de Lima. Levantamento da comunidade de borboletas em bairros da cidade de Campos do Jordão – SP. Monografia (graduação) – Universidade de Taubaté, Departamento de Biologia, 2020.

LEIRNER, Felícia. Textos Poéticos e Aforismos. Editora Perspectiva, 2014.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

3º QUADRIMESTRE

REFLEXÃO SOBRE AS FRONTEIRAS DO CONHECIMENTO DENTRO DO SETOR EDUCATIVO

O setor educativo desempenha um papel fundamental na intermediação entre o visitante e os espaços culturais, mediando o aprendizado, a disseminação do conhecimento e a interação do público com o local, por meio de ações educativas.

As ações e oficinas educativas realizadas no Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro são desenvolvidas pelo setor educativo e seguem temáticas, dentro dos pilares do espaço, sendo elas: Artes Visuais, Música e Patrimônio Ambiental, norteando as propostas educativas oferecidas ao público. O setor também abrange suas ideias no âmago do espaço através das datas comemorativas do calendário nacional e regional. Oferece oportunidades de aprendizado experiencial, onde os visitantes podem participar de atividades práticas, visitas educativas, experimentos, oficinas de interação com Museu e Auditório. Esse tipo de aprendizado envolvente e imersivo permitem que os visitantes vivenciem o conhecimento sobre o espaço de forma mais significativa e memorável. Oferecendo ainda oportunidades para que as pessoas acessem informações sobre os dois espaços culturais, abrangendo conceitos e ideias de diversas áreas do conhecimento, permitindo uma ampliação de horizontes e diferentes perspectivas onde se é possível observar.

O setor educativo conduz os visitantes a explorarem as artes visuais em seus diferentes estilos artísticos e técnicas a partir da artista Felícia Leirner, aprendendo sobre a história da arte e desenvolvendo uma apreciação pela criatividade e expressão artística. Bem como a música, no qual o Auditório promove através dos concertos os festivais de verão e inverno organizado pela OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), assim como a série arte no outono e primavera que contam com apresentações teatrais, musicais e muito mais. Ações que permitem descobertas de novos artistas, aprendizado sobre a história da música, diferentes instrumentos e sons, onde o núcleo educativo, em prestígio também ao Claudio Santoro, desenvolve ações dentro do conhecimento da música.

O Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio são espaços nos quais a equipe do educativo pode explorar as áreas do conhecimento a partir de diversas perspectivas, permitindo uma visão ampla e interdisciplinar sobre os pilares que permeiam as instituições. As diferentes áreas que conduzem o setor estabelecem conexões entre elas, enriquecendo as experiências educativas oferecidas aos visitantes. Possibilita a criação de abordagens inovadoras e criativas no desenvolvimento de atividades educativas. Ao combinar elementos das artes visuais, da música e meio ambiente é possível criar experiências imersivas e sensoriais que estimulam a percepção e a compreensão dos visitantes. A interação entre diferentes áreas também pode despertar o interesse de públicos variados, tornando o museu mais acessível e atrativo. Nesse contexto, o Museu Felícia Leirner e o Auditório Claudio Santoro se destacam como importantes espaços culturais localizados também em meio a remanescentes da Mata Atlântica, sendo possível apreciar a beleza da natureza ao redor. Essa integração entre cultura e natureza cria uma atmosfera especial, que enriquece a visita e desperta a consciência ambiental. O Museu, por exemplo, abriga esculturas ao ar livre que dialogam harmoniosamente com a natureza ao redor. Essa interação entre arte e meio ambiente desperta nos visitantes a reflexão sobre a necessidade de proteger e conservar a biodiversidade local.

É interessante observar que apesar dos pilares permearem o Museu e Auditório, o cenário desses dois espaços culturais é rico em informações que podem ser exploradas em distintas áreas. Dessa forma o setor educativo desempenha um papel fundamental na exploração do conhecimento disponível no Museu e no Auditório.

O brutalismo é um estilo arquitetônico que surgiu na década de 1950 e se popularizou nas décadas seguintes. Caracterizado por sua aparência “bruta” e “crua”, também é conhecido por suas estruturas de concreto exposto, linhas retas, ausência de ornamentos, simplicidade e a funcionalidade na arquitetura (ANTONIO et al., 2017).

As ciências biológicas se encaixam na temática meio ambiente e abrangem a área de biologia, a diversidade da vida e o bioma Mata Atlântica, nas quais as características do ecossistema, dos animais e das plantas, podem ser conhecidas e observadas no Museu e Auditório. Estudar ciências biológicas em um espaço cultural é enriquecedor justamente pela interação dessas duas áreas do conhecimento.

O setor educativo também explora diferentes formas de conhecimento a partir de referências literárias sobre a Artista Felícia Leirner e suas poesias ou sobre Cláudio Santoro e suas composições cinematográficas, incluindo a área de estudo audiovisual, aprendendo sobre a história do cinema e refletindo sobre questões sociais e culturais retratadas na sétima arte. Propostas sobre eventos históricos, culturas passadas e tradições preservadas, desenvolvendo uma compreensão mais profunda da cidade de Campos do Jordão e muito mais. A equipe também estabelece parcerias com instituições educacionais, como escolas ou universidades, para complementar e enriquecer o currículo formal. Assim como visitas escolares junto a oficinas como complemento lúdico do aprendizado, programas educativos específicos, projetos colaborativos, recursos educativos, onde estão alinhados com os objetivos culturais do Museu e Auditório e suas fronteiras do conhecimento que podem ser exploradas.

Desse modo é oferecido uma série de atividades e recursos para promover a aprendizagem e o desenvolvimento dos visitantes e das escolas de forma inclusiva, adaptando suas atividades e recursos para atender diferentes faixas etárias, níveis de conhecimento e necessidades dos visitantes, desenvolvendo materiais educativos em formatos acessíveis, onde o conhecimento e as informações presentes no Museu Felícia Leirner e no Auditório Claudio Santoro podem ser compartilhados de forma inclusiva e democrática.

Em suma, a “polimatia” de um setor educativo permite que os profissionais tenham conhecimentos adequados para adaptar as informações e atividades de acordo com as necessidades e interesses de cada assunto. Dessa forma, é possível promover uma educação mais inclusiva e personalizada, atendendo às demandas específicas de cada visitante, além da capacidade de dialogar com diferentes públicos e faixas etárias. A formação de profissionais mais completos e versáteis no contexto atual em que a interdisciplinaridade é cada vez mais valorizada, assim como possuir conhecimentos em diferentes áreas são um diferencial importante no Museu e Auditório.

REFERÊNCIAS

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

ANTONIO, Augusto. et al. Brutalismo: Conceitos e análises da Escola Paulista da Arquitetura Moderna Brasileira. Anais do 15º Encontro Científico Cultural Interinstitucional e 1° Encontro Internacional. Paraná, 2017.

2º QUADRIMESTRE

UMA COLCHA DE RETALHOS: ENTRE A INFÂNCIA, A ESCOLA E OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS

“Uma colcha é tanto um registro de história de vida quanto uma coberta confortável.”

bell hooks

Durante as visitas do público infantil, perguntas para conhecer mais o grupo são sempre bem-vindas e entre elas temos “o que encontramos nos museus?”. As respostas muitas vezes são “coisas velhas”, “livros”, “dinossauros”, “animais empalhados” e “pinturas”, entre várias opções. Quando explicamos, então, que o Museu Felícia Leirner é um museu todo a céu aberto, repleto de esculturas de diversos materiais, formatos, tamanhos e da mesma artista, temos a possibilidade de adicionar essa construção de um museu no imaginário dos pequenos. E, não menos importante, ao passarmos pelo Auditório Cláudio Santoro, conseguimos resgatar sua grandiosidade, acústica, história e beleza complementada pela Mata Atlântica ao nosso redor.

Em alguns momentos, este pode ser o primeiro contato das crianças com esses espaços culturais recheados de história e que farão parte de suas memórias e trajetórias, compondo, desta forma, mais uma parte da colcha de retalhos que é a vida, onde cada “retalho” é referente a uma experiência, local, troca ou pessoas que cruzam nossos caminhos. Essas ocasiões de contato com os espaços, diversas vezes, são proporcionadas por um passeio escolar e é neste momento que destacamos a importância da parceria entre os equipamentos culturais e as escolas. Essa ponte depende principalmente de um canal de comunicação entre ambos, uma relação de troca mútua com objetivo principal de proporcionar, aos estudantes, experiências enriquecedoras.

“Podemos afirmar que o sucesso das ações com públicos escolares depende da criação de um canal de comunicação efetivo entre os profissionais dessas instituições: o professor e o educador do museu. Um programa educativo consistente é um grande diferenciador para museus e centros culturais. Programas educativos que contemplem a formação de professores, com palestras e visitas-guiadas, dão oportunidade, aos professores, de prepararem seus alunos previamente à visita, o que sabemos, aumenta muito as potencialidades educacionais desse momento.” (MARTINS, 2013, p. 26-27)

Pensando nesse tipo de parceria, o setor educativo desenvolveu novo portfólio de atividades para apresentá-lo aos novos docentes da rede municipal. O objetivo é de demonstrar as ações oferecidas e realizadas pelos educadores, seja nas dependências dos equipamentos culturais para finalizar uma visita educativa, ou ainda no projeto “Museu vai à escola” em que o núcleo educativo leva oficinas à sala de aula. O material apresenta diversas atividades focadas nos três eixos temáticos: Artes Visuais, Música e Meio Ambiente. Contém uma foto de suas respectivas produções, indicação de faixa etária e sugestões de datas, pois a proposta das atividades adicionadas ao dossiê foi pensada também nas diversas datas comemorativas do primeiro semestre de 2023.

O portfólio foi apresentado entre fevereiro e março, em 15 escolas municipais de Ensinos Infantil, Fundamental I e Fundamental II, resultado da colaboração entre Museu e Auditório e Secretaria de Educação Municipal de Campos do Jordão (SP). Com esses encontros, o Núcleo Educativo atendeu o público escolar, a maior parte de escolas municipais, nos programas “Visitas Educativas” e “Museu Vai à Escola”.

Esses momentos de diálogo e presença dos educadores em sala de aula, foram e são de extrema importância também para início de um contato dos alunos com o Museu e Auditório ainda no espaço escolar. Além disso, em vários momentos, os equipamentos foram temas de aulas ministradas pelos professores para o preparo da turma para a visita educativa.

Para assegurar a continuidade dessas ações, o núcleo educativo irá trabalhar na atualização do portfólio baseado nas experiências e resultados obtidos neste primeiro momento, buscando aprimorar o material e, então, apresentá-lo novamente após o retorno das férias escolares de julho. Também vai ampliar a ação para as escolas particulares da cidade e escolas de ensino médio municipais.

Toda essa mobilização busca aproximar não apenas o público escolar para o Museu e Auditório, mas principalmente o público jordanense, fortalecendo a construção do sentimento de pertencimento para com os equipamentos culturais, como patrimônios culturais de Campos do Jordão.

REFERÊNCIAS

PEREIRA. Júnia Sales et al.. Escola e museu – Diálogos e práticas. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura/ Superintendência de Museus; Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais/ Cefor, 2007.

MARTINS, Luciana Conrado et al.. Que público é esse? Formação de públicos de museus e centros culturais. São Paulo: Percebe, 2013.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

Portfólio de Atividades do Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro, 2023. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1-K8RQXWxoziwQ3EM4PFm1cynUrjGr2jc/view?usp=sharing

PINTO, Júlia Rocha; COUTINHO, Rejane Galvão. Arte-educação em instituições culturais: O ensino não formal em museus de arte. S/d.  Disponível em: http://www.nupea.fafcs.ufu.br/pdf/10eraea/relatos_pesquisa/arte_educacao_em_instituicoes_culturais.pdf  . Acesso em: 09/04/2023.

1º QUADRIMESTRE

O MUSEU FELÍCIA LEIRNER ENQUANTO ESPAÇO DE DISCUSSÃO E DIFUSÃO PARA A HISTORIOGRAFIA DA ARTE BRASILEIRA

“A relação entre mulheres e a criação artística na cultura ocidental: é a hipervisibilidade da mulher como objeto de representação e sua invisibilidade persistente como sujeito criador.”

Patrícia Mayayo

Você já parou para pensar em quantos museus do Estado de São Paulo levam o nome de uma artista mulher?

 A historiografia da arte ocidental sempre deixou as mulheres artistas à margem dos cânones dos movimentos artísticos, sobretudo das vanguardas modernas europeias do século XX. Os livros clássicos que se tornaram “manuais” sobre a história da arte ocidental contribuíram para esse apagamento histórico das mulheres artistas. O Brasil talvez seja um dos únicos países onde uma mulher é considerada o “mártir” do Modernismo, como é o caso de Anita Malfatti e a crítica de sua exposição de 1917. Nos anos 30, essa configuração se modifica um pouco, principalmente para as mulheres pintoras que estiveram cada vez mais presentes dentro das academias e das galerias de arte e, consequentemente, mais bem viabilizadas nas colunas de críticas dos grandes jornais. Ainda que as possibilidades de estudo artístico às mulheres tenham se tornado bastante frequente, vale ressaltar que somente cerca de 20% do acervo dos principais Museus de Arte do Estado de São Paulo são constituídos por obras de artistas mulheres. E segundo o catalogo do IBRAM de 2011, há em torno de 15 museus no Estado de São Paulo nomeados com o nome de uma mulher. Para se ter uma ideia, no Estado existem mais de 500 museus registrados, ou seja, apenas 3% correspondem a essa nomeação. Tendo em vista essa responsabilidade social, cultural e educacional relacionada a essas temáticas de gênero, raça, classe e diversidade, o Museu Felícia Leirner se insere nessa perspectiva.

A documentação publicada sobre Felícia Leirner, muitas vezes, não reitera a contribuição das mulheres que foram cruciais em sua vida profissional. A artista polonesa foi aluna de Yolanda Mohalyi e de Elisabeth Nobling, e se consolidou diante de um círculo artístico muito bem estruturado que abrangeu muitas mulheres artistas, sobretudo mulheres imigrantes, mas só é ressaltado o seu aprendizado com o escultor Victor Brecheret.  Assim, um dos pilares de grande relevância do Museu Felícia Leirner é a reinterpretação de seu acervo museológico e a mediação deste com o público, pautado pela perspectiva dos estudos sociais, políticos e culturais da questão de gênero.

 As ações do Núcleo Educativo são essenciais para que se estabeleça essa conexão entre Museu e espectador, a fim de proporcionar um pensamento emancipador. Por meio de visitas educativas, das oficinas e do curso para professores, é possível trabalhar uma concepção educacional artística, histórica, sociológica, de forma crítica, didática e muito bem embasada. Pensando sempre na sociabilidade que o espaço deve exercer dentro da comunidade em que está inserido.

Um exemplo dessas ações foram as oficinas: “A influência de uma época e a fanzine” ligadas a comemoração do centenário da Semana da Arte Moderna de São Paulo que contou com as obras e participação de artistas mulheres como Anita Malfatti, Zina Aita e Guiomar Novaes. O Museu Felícia Leirner e Auditório Cláudio Santoro recebem visitantes bastante distintos, desde público espontâneo, professores, alunos da rede pública e privada a estudantes de pós-doutorado. Considerando-se que a cada ano a visitação ao Museu Felícia Leirner é mais expressiva, é sempre importante que a instituição preze em ser referência de pesquisa e espaço de discussão.

REFERÊNCIAS

ACAYBA Cíntia, FIGUEIREDO Patrícia. Artistas mulheres representam cerca de 20% dos acervos do Masp e Pinacoteca. G1 Globo, São Paulo, 31 de mar. 2022. Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/03/31/artistas-mulheres representam-cerca-de-20percent-dos-acervos-do-masp-e-pinacoteca-dificil-apagar-exclusao-do-passado-diz-especialista.ghtml>. Acesso em: 21 de jan. 2023.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. 1770/1970. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

MAYAYO, Patrícia. Historias de Mujeres, Historias del arte. Madrid: Ensayos Arte Cátedra, 2003.

MORAIS, Frederico. Felícia Leirner: a arte como missão/ Frederico Moraes – Campos do Jordão, SP: Museu Felícia Leirner, 1991.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

SIMIONI, Ana Paula Cavalcanti. Mulheres Modernistas: Estratégias de Consagração na

Arte Brasileira. São Paulo: Edusp, 2022.