1º QUADRIMESTRE

O papel dos educadores para a construção de uma visita educativa.
“Aqui era a casa dela? ” “Ela morou aqui em Campos do Jordão? ” “Este Museu pertence à família? ” Essas são perguntas frequentes que os visitantes fazem aos nossos educadores. Notamos, inclusive, que o aspecto biográfico sempre chama mais a atenção do visitante que nos procura. Por isso, nós
educadores, temos uma tarefa muito importante: A de nos afastarmos desse biografismo.
Antes de adentrarmos no texto, ressaltamos que este boletim surge da reflexão de nossos educadores, como um primeiro passo para um assunto tão complexo e profundo. E ainda, gostaríamos de convidar os educadores museais, professores, estudantes, pesquisadores, e toda a comunidade que nos visita para nos ajudar a pensarmos em tais soluções.
“O Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro tem como missão preservar, pesquisar e comunicar sua coleção de esculturas; promover fruição e expressão em artes visuais, especialmente em escultura; estimular apreciação, compreensão e expressão musical; preservar a vegetação do
seu jardim, intrinsecamente associada com a coleção de esculturas, e sua área adjacente de mata atlântica, e promover a conservação ambiental, contribuindo na construção de
diálogos e pontes para o conhecimento. ” (Museu Felicia Leirner, 2020)
Conforme vimos na proposta de Missão do Museu, somos educadores de um Museu de Arte, cujo papel educativo se propõe a mediar a nossa coleção de esculturas ao espectador que nos visita. E de que forma podemos fazer isso? Essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis de se realizar, já que
estamos em um espaço tão singular, como é o Museu Felícia Leirner. Pouquíssimos artistas tiveram a oportunidade de verem reunidos parte de seus trabalhos em um único lugar, cuja exposição é fixa e o local leva o seu nome.
Em outros locais que são atrelados ao nome de algum artista, geralmente são Museus-casa ou Museus Históricos, onde ambos se encaixam em categorias completamente distintas da nossa. Assim, poderíamos afirmar que é praticamente nulo a quantidade de espaços como o nosso. Partindo deste ponto, voltamos novamente à questão: Como estruturamos uma visita educativa que cumpra com o objetivo de saciar o anseio das curiosidades da vida da artista e ao mesmo tempo discutir as experiências dos processos imigratórios, o contexto sócio-político e econômico da cidade de São Paulo, as Bienais de Arte, o mecenato artístico, as premiações e a construção deste Museu? Já que que Felícia Leirner é uma agente que atua de várias formas dentro do “sistema das artes”, cujo termo poderíamos definir a partir da pesquisa da historiadora e crítica de arte, Maria Bulhões: “Conjunto de indivíduos e instituições responsáveis pela produção, difusão e consumo de objetos e eventos por eles mesmo rotulados […], ao longo de um período histórico. ” (BULHÕES, p. 15; 2014).
E nossa proposta deve ser calcada na ideia de que a visita deva durar tempo suficiente para que não canse o nosso público.
Deste modo, encontramos o conceito de “trajetória”, postulado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, cujo debate e proposta são essenciais para repensarmos a nossa narrativa. Podemos definir que, segundo Bourdieu, a trajetória é a junção das relações entre os sujeitos com as forças presentes no campo. Dentro da dinâmica do educativo, acredito que todos os educadores trabalhem em cima dessa perspectiva sócio-histórica da trajetória. A partir disso, conseguimos afastar a noção de um biografismo, ou de uma história de vida de um determinado sujeito, na medida em que a história é construída a partir de acontecimentos e ações considerados significativos para a nossa
proposta.
“Toda trajetória social deve ser compreendida como uma
maneira singular de percorrer o espaço social, onde se
exprimem as disposições do habitus; cada deslocamento para
uma nova posição, enquanto implica a exclusão de um
conjunto mais ou menos vasto de posições substituíveis e, com
isso, um fechamento irreversível do leque dos possíveis
inicialmente compatíveis, marca uma etapa de envelhecimento
social que se poderia medir pelo número dessas alternativas
decisivas, bifurcações da árvore com incontáveis galhos mortos
que representa a história de uma vida. (BOURDIEU, p.292;
1992) ”
Após levantar os questionamentos, tentamos solucionar as lacunas na
prática, na medida em que: Usamos nossos dois equipamentos como se
fossem estações da história. “ – Mas o que seria isso? ”
No Auditório Claudio Santoro, por exemplo, você não recebe informações somente da sala de concertos em si. É importante entendermos que tudo é construído em um tempo e contexto, cujo tempo é moldado a partir de uma história de longa duração. Para você entender a construção deste
equipamento, você tem que ouvir sobre os ciclos da cidade de Campos do Jordão, a história do Festival de Inverno, as questões estruturais e estética do prédio e de como tudo isso em conjunto determina que o visitante esteja aqui. Do mesmo modo, começamos a visita na área externa relatando a vida pregressa de Felícia ainda em solo europeu, passando pelo empreendimento têxtil, os ateliers de artistas, até chegar naquela primeira escultura que vemos.
Utilizamos também o método dos “anos” para nos conectarmos à ideia da trajetória. Por exemplo, 1953 que demarca a primeira apresentação de alguma obra na Bienal de São Paulo, interligamos todos esses outros assuntos que perpassam os movimentos de Felícia Leirner no campo sócio-político das artes.
Por fim, gostaríamos de ressaltar que, dessa forma, acreditamos estar trilhando as melhores alternativas para comunicarmos o nosso acervo museológico e demais temas, munidos também na confecção de materiais, cursos e oficinas e demais atividades educativas para favorecer a participação de todos os interessados, sempre levando em conta as necessidades
específicas de cada grupo ou indivíduo.
REFERÊNCIAS:
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo
literário. São Paulo: Companhia das letras, 1996
BULHÕES, Maria Amélia. As novas regras do Jogo: O sistema da arte
no Brasil. São Paulo: Zouk Editora, 2014.
MUSEU FELICIA LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Plano
Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021. MUSEU FELICIA
LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Programa de Acervo. ACAM
Portinari: Campos do Jordão, 2021.
MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO.
Programa Educativo e Cultural. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.


Arquivo Wanda Svevo. Fotografia de Willian Nascimento

Felícia e Isai Leirner, com o presidente da Itália, Giovanni Gronchi.
Ao fundo, tela de Di Cavalcanti. Sheila Leirner










































