3º Trimestre | 2016

O acervo do Museu Felícia Leirner é permanente, exposto ao ar livre e possui um diferencial muito interessante: foi organizado pela própria artista. A curadoria, organização das obras em uma exposição, privilegiou a ordem cronológica, que permitiu a separação das esculturas em cinco fases claramente definidas: Figurativa (1950 a 1958), A caminho da abstração (1958 a 1961), Abstrata (1963 a 1965), Orgânica (1966 a 1970) e Recortes na paisagem (1980 a 1982).

O visitante pode escolher acompanhar essa sequência, seguindo a proposta da artista, ou subvertê-la caminhando aleatoriamente pelo espaço do Museu. Ainda que a opção seja por não seguir a cronologia, as fases continuarão bem marcadas, tanto pelos materiais utilizados, quanto pela temática ou linguagem própria de cada período.

O que é marcante e permeia a poética, como um todo, é a relação entre o acervo e o meio circundante, que estabelece, inclusive, especificidades na conservação da coleção.

No último semestre, o acervo do Museu Felícia Leirner ganhou um novo recorte, voltado ao atendimento de novos públicos. O programa de acessibilidade selecionou seis obras da coleção para trabalhar junto ao público cego. Desta forma, as esculturas selecionadas ganharam legendas em dupla leitura (tinta e Braille) e foram incluídas em um audioguia, que auxilia as pessoas cegas e com baixa visão a percorrerem o roteiro das obras em questão e a realizarem a sua exploração tátil.

Ao criar esse “recorte” na coleção, buscou-se respeitar a curadoria original do acervo, com a seleção de obras pertencentes as fases da artista, com diferentes materiais e com a possibilidade de abordagem dos temas mais pertinentes à poética da escultora.

A efetividade dessa iniciativa propõe para a equipe o desafio de manter as obras selecionadas sempre prontas para serem tocadas e exploradas pelo público cego, bem como visivelmente conservadas para a contemplação do público vidente. Com isso, reiteramos a complexidade da conservação de um acervo exposto ao ar livre, principalmente quando aliada à perspectiva de inclusão, que visa à interação qualitativa entre os mais diferentes públicos e a coleção. Vale destacar a importância de uma gestão transversal, que privilegie a participação das várias equipes nos objetivos centrais da organização. Neste caso em especial, objetivando tanto a conservação do acervo quanto a segurança do usuário, a regularidade na interlocução, principalmente entre as equipes de Acervo, Jardinagem e Educativo faz-se imprescindível.

Se por um lado os acervos permanentes trazem o desafio da repetição, eles também permitem a possibilidade da renovação do olhar para as coleções como forma de dinamizar o discurso original, criando novos e atualizados discursos e potencializando diálogos com a coleção.

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